sexta-feira, 17 de julho de 2015

Show da vida, um passeio pelos programas detox

Esta semana o assunto na clínica onde trabalho era um só: a reportagem parcial e pejorativa feita pelo programa da TV Globo Fantástico sobre os tratamentos de destoxificação. Não tenho costume de assistir à televisão e muito menos ao domingueiro “show da vida”, mas fui ao site da emissora conferir o motivo de tanto bochicho. Afinal de contas, trabalho há 5 anos com programas e dietas de desintoxicação e sei o que eles podem trazer de benefícios ao organismo. Mas sei também que a indústria é oportunista e se apropria desses termos da moda – e detox agora é um deles – e sei que as pessoas costumam buscar soluções mágicas em produtos milagrosos, o que infelizmente não existe. Então, me propus aqui a desmistificar a reportagem do Fantástico.

Balaio de gato

A intenção inicial da reportagem me pareceu até louvável: avaliar a real eficácia de produtos – cápsulas, comprimidos, pós – intitulados de  detox, uma vez que tais produtos de fato estão na moda, sendo muitas vezes usados indiscriminadamente sem prescrição ou orientação profissional. No entanto, a matéria acabou por colocar no mesmo “saco” os tais produtos industrializados e os sucos de vegetais e frutas, conhecidos como suco verde.

O grande benefício do suco verde é ser um sumo de folhas e frutas orgânicos, extremamente rico em antioxidantes e outras substâncias químicas benéficas ao organismo. Justamente porque é preparado e consumido no mesmo momento, portanto com todos esses nutrientes presentes e ativos. Além disso, o fato de já estar na forma líquida facilita a digestão e absorção dos nutrientes pelas células intestinais. Portanto, um suco verde orgânico e preparado na hora  é um alimento muito benéfico - e não um produto -, que nada tem a ver com comprimidos, cápsulas e pós ditos milagrosos.

Os médicos entrevistados pelo programa alegam que não há evidências científicas de que tais sucos possuam propriedades desintoxicantes. No entanto, já está bastante comprovado pela ciência baseada em evidências que os fitoquímicos das folhas verde-escuro estimulam as reações de desintoxicação no fígado, sendo recomendadas inclusive como alimentos protetores contra o câncer.

Balança descompensada

Outro ponto problemático da reportagem é a alegação dos médicos entrevistados de que o nosso corpo não precisa de dietas de desintoxicação porque nossos órgãos depurativos já fazem isso diariamente.  A teoria é linda e verdadeira, mas na prática não é bem assim. Supostamente nossos órgãos deveriam sim fazer isso com eficiência se 1) a gente cuidasse bem deles e 2) não houvesse uma carga tóxica tão alta com a qual lidar atualmente.

Nas minhas palestras sobre destoxificação, costumo dizer que os nossos órgãos depurativos – sobretudo o fígado e os rins – são como a vela de um filtro. Tudo funciona bem desde que a quantidade de impurezas da água não supere a capacidade de filtração da vela e desde que a vela esteja preservada e bem cuidada. Infelizmente não é nossa realidade. Somos expostos a uma quantidade de toxinas muito maior do que somos capazes de metabolizar: agrotóxicos, corantes, conservantes, medicamentos, cosméticos, produtos de limpeza, água tratada com excesso de flúor e cloro, ar poluído, radiação de aparelhos eletrônicos. E temos um estilo de vida que não prioriza o cuidado com o corpo: estresse, falta de sono, sedentarismo, sobrecarga de trabalho, maus hábitos alimentares.

Vocês podem ver que desse jeito a conta não fecha e essa balança sempre vai pender mais para o lado das toxinas. O que os programas de desintoxicação fazem – seja em spas especializados ou em casa orientados por profissionais capacitados - é justamente tentar equilibrar um pouco mais essa balança, tanto reduzindo a exposição às toxinas, quanto fortalecendo o organismo em geral e os órgãos depurativos mais especificamente.

Efeito detox

É evidente que, para a manutenção dos benefícios que a dieta de desintoxicação traz, é necessário mudar o estilo de vida dali em diante, ou os problemas voltarão a se manifestar. Mas daí a dizer que a dieta de destoxificação não traz nenhum benefício é desconhecimento do assunto. Ao longo desses anos de trabalho nessa área, já vi curas muito importantes: alergias severas desaparecerem,  sintomas de doenças autoimunes serem minimizados, diabetes serem revertidos, gastrites serem eliminadas, e tantas outras.

É evidente também que a desintoxicação precisa ser acompanhada por profissionais capacitados, para garantir que o corpo receba todos os nutrientes necessários e minimizar eventuais desconfortos ao longo do processo. A dor de cabeça, enjoo e mal-estar citados por uma das entrevistadas da reportagem são bastantes comuns nos primeiros 4 dias, o que eu chamo de “efeitos colaterais da desintoxicação”. Mas não se trata de hipoglicemia, como sugeriu um dos médicos consultados. Isso faz parte do processo de excreção de toxinas no corpo. O fígado transforma as toxinas numa forma química que os rins possam filtrar e eliminar. Só que do fígado aos rins, as toxinas são transportadas pela corrente sanguínea. Como o sangue circula por todo o corpo, as toxinas por ele transportadas também, podendo causar desconfortos em diversas áreas até que tudo seja eliminado pelos rins ou suor. A propósito, o suor elimina toxinas sim, ao contrário do que disseram os especialistas entrevistados.

Barro na barriga

Justamente para minimizar esses desconfortos iniciais associados ao processo de desintoxicação é que os spas especializados associam algumas técnicas terapêuticas - como respiração, aplicação de argila, banho de assento e lavagem - às mudanças alimentares.

O que a reportagem do Fantástico tratou de forma extremamente pejorativa, chamando de “barro na barriga” é uma técnica conhecida como geoterapia, que consiste em aplicar argila em determinadas partes do corpo para melhorar o equilíbrio térmico do organismo. Sabe-se que num processo inflamatório, as células do sistema imunológico produzem substâncias que aumentam a temperatura local como forma de defesa (é o mecanismo da febre, por exemplo). Só que numa inflamação crônica essa elevação de temperatura pode causar problemas a longo prazo, pois as estruturas celulares naquele local podem perder sua função devido a essa temperatura inadequada. O que a argila faz é drenar o excesso de calor do local (isso é física: o calor vai de onde tem mais – órgão inflamado – para onde tem menos – pele refrescada pela argila). Com isso, as células passam a ter um ambiente mais propício para restabelecer suas funções.

Corpo inteligente


Então, em essência, os programas de desintoxicação sérios e bem orientados consistem em oferecer ao organismo boas condições para que ele mesmo possa se curar: ar puro, alimentos frescos, atividade física revigorante, contato com a natureza. Células bem nutridas em todos os níveis são mais inteligentes e sabem escolher o que faz bem para elas. Este sim é o show da vida.

Um comentário:

Cristiane Corsap disse...

Porra Maíra, vc é foda!!!! Ótimo texto! péssima reportagem do Fantástico! Parabéns!!!