Esta semana o assunto na clínica onde trabalho era um só: a reportagem parcial e pejorativa feita pelo programa da TV
Globo Fantástico sobre os tratamentos de destoxificação. Não tenho costume de
assistir à televisão e muito menos ao domingueiro “show da vida”, mas fui ao
site da emissora conferir o motivo de tanto bochicho. Afinal de contas,
trabalho há 5 anos com programas e dietas de desintoxicação e sei o que eles
podem trazer de benefícios ao organismo. Mas sei também que a indústria é
oportunista e se apropria desses termos da moda – e detox agora é um deles – e
sei que as pessoas costumam buscar soluções mágicas em produtos milagrosos, o
que infelizmente não existe. Então, me propus aqui a desmistificar a reportagem
do Fantástico.
Balaio
de gato
A intenção inicial da reportagem me pareceu
até louvável: avaliar a real eficácia de produtos – cápsulas, comprimidos, pós
– intitulados de detox, uma vez que tais
produtos de fato estão na moda, sendo muitas vezes usados indiscriminadamente
sem prescrição ou orientação profissional. No entanto, a matéria acabou por
colocar no mesmo “saco” os tais produtos industrializados e os sucos de
vegetais e frutas, conhecidos como suco verde.
O grande benefício do suco verde é ser um
sumo de folhas e frutas orgânicos, extremamente rico em antioxidantes e outras substâncias
químicas benéficas ao organismo. Justamente porque é preparado e consumido no
mesmo momento, portanto com todos esses nutrientes presentes e ativos. Além
disso, o fato de já estar na forma líquida facilita a digestão e absorção dos
nutrientes pelas células intestinais. Portanto, um suco verde orgânico e
preparado na hora é um alimento muito
benéfico - e não um produto -, que nada tem a ver com comprimidos, cápsulas e pós
ditos milagrosos.
Os médicos entrevistados pelo programa
alegam que não há evidências científicas de que tais sucos possuam propriedades
desintoxicantes. No entanto, já está bastante comprovado pela ciência baseada
em evidências que os fitoquímicos das folhas verde-escuro estimulam as reações
de desintoxicação no fígado, sendo recomendadas inclusive como alimentos
protetores contra o câncer.
Balança
descompensada
Outro ponto problemático da reportagem é a
alegação dos médicos entrevistados de que o nosso corpo não precisa de dietas
de desintoxicação porque nossos órgãos depurativos já fazem isso diariamente. A teoria é linda e verdadeira, mas na prática
não é bem assim. Supostamente nossos órgãos deveriam sim fazer isso com
eficiência se 1) a gente cuidasse bem deles e 2) não houvesse uma carga tóxica
tão alta com a qual lidar atualmente.
Nas minhas palestras sobre destoxificação,
costumo dizer que os nossos órgãos depurativos – sobretudo o fígado e os rins –
são como a vela de um filtro. Tudo funciona bem desde que a quantidade de
impurezas da água não supere a capacidade de filtração da vela e desde que a
vela esteja preservada e bem cuidada. Infelizmente não é nossa realidade. Somos
expostos a uma quantidade de toxinas muito maior do que somos capazes de
metabolizar: agrotóxicos, corantes, conservantes, medicamentos, cosméticos,
produtos de limpeza, água tratada com excesso de flúor e cloro, ar poluído,
radiação de aparelhos eletrônicos. E temos um estilo de vida que não prioriza o
cuidado com o corpo: estresse, falta de sono, sedentarismo, sobrecarga de
trabalho, maus hábitos alimentares.
Vocês podem ver que desse jeito a conta não
fecha e essa balança sempre vai pender mais para o lado das toxinas. O que os
programas de desintoxicação fazem – seja em spas especializados ou em casa
orientados por profissionais capacitados - é justamente tentar equilibrar um
pouco mais essa balança, tanto reduzindo a exposição às toxinas, quanto
fortalecendo o organismo em geral e os órgãos depurativos mais especificamente.
Efeito
detox
É evidente que, para a manutenção dos
benefícios que a dieta de desintoxicação traz, é necessário mudar o estilo de
vida dali em diante, ou os problemas voltarão a se manifestar. Mas daí a dizer
que a dieta de destoxificação não traz nenhum benefício é desconhecimento do
assunto. Ao longo desses anos de trabalho nessa área, já vi curas muito
importantes: alergias severas desaparecerem,
sintomas de doenças autoimunes serem minimizados, diabetes serem
revertidos, gastrites serem eliminadas, e tantas outras.
É evidente também que a desintoxicação precisa
ser acompanhada por profissionais capacitados, para garantir que o corpo receba
todos os nutrientes necessários e minimizar eventuais desconfortos ao longo do
processo. A dor de cabeça, enjoo e mal-estar citados por uma das entrevistadas da
reportagem são bastantes comuns nos primeiros 4 dias, o que eu chamo de
“efeitos colaterais da desintoxicação”. Mas não se trata de hipoglicemia, como
sugeriu um dos médicos consultados. Isso faz parte do processo de excreção de
toxinas no corpo. O fígado transforma as toxinas numa forma química que os rins
possam filtrar e eliminar. Só que do fígado aos rins, as toxinas são
transportadas pela corrente sanguínea. Como o sangue circula por todo o corpo,
as toxinas por ele transportadas também, podendo causar desconfortos em
diversas áreas até que tudo seja eliminado pelos rins ou suor. A propósito, o
suor elimina toxinas sim, ao contrário do que disseram os especialistas
entrevistados.
Barro
na barriga
Justamente para minimizar esses
desconfortos iniciais associados ao processo de desintoxicação é que os spas
especializados associam algumas técnicas terapêuticas - como respiração,
aplicação de argila, banho de assento e lavagem - às mudanças alimentares.
O que a reportagem do Fantástico tratou de
forma extremamente pejorativa, chamando de “barro na barriga” é uma técnica
conhecida como geoterapia, que consiste em aplicar argila em determinadas
partes do corpo para melhorar o equilíbrio térmico do organismo. Sabe-se que
num processo inflamatório, as células do sistema imunológico produzem
substâncias que aumentam a temperatura local como forma de defesa (é o
mecanismo da febre, por exemplo). Só que numa inflamação crônica essa elevação
de temperatura pode causar problemas a longo prazo, pois as estruturas
celulares naquele local podem perder sua função devido a essa temperatura
inadequada. O que a argila faz é drenar o excesso de calor do local (isso é
física: o calor vai de onde tem mais – órgão inflamado – para onde tem menos –
pele refrescada pela argila). Com isso, as células passam a ter um ambiente
mais propício para restabelecer suas funções.
Corpo
inteligente
Então, em essência, os programas de
desintoxicação sérios e bem orientados consistem em oferecer ao organismo boas
condições para que ele mesmo possa se curar: ar puro, alimentos frescos,
atividade física revigorante, contato com a natureza. Células bem nutridas em
todos os níveis são mais inteligentes e sabem escolher o que faz bem para elas.
Este sim é o show da vida.